30 de setembro de 2009

Visões de Mundo

Em um espaço de menos de uma semana tive oportunidade de ter uma mesma conversa, em momentos distintos, com diferentes amigos sobre como vemos determinadas coisas que acontecem na nossa sociedade. Alguns diriam que conversamos sobre política e economia, mas eu prefiro dizer que compartilhamos nossas visões de mundo. Sim, pois, a despeito das visões apaixonadas que temos nesses momentos em que se discutem temas controversos, estamos pondo à mostra a maneira com que encaramos a realidade que nos cerca e a perspectiva de mundo que queremos ou sonhamos.

A história já se encarregou de sepultar os devaneios coletivistas que comunistas e fascistas imaginavam ser a utopia de um mundo sem diferenças. Tais devaneios demonstraram-se ingênuos ou então propícios apenas para que atrocidades incríveis fossem cometidas em nome de uma suposta igualdade entre os homens. O ser humano tem um desejo e uma ambição natural de ser diferente de outro. E trocar Liberdade por Igualdade demonstrou-se tão perigoso quanto trocar Liberdade por Ordem, como as ditaduras militares impuseram na América Latina no passado. Cuba está aí para provar isso.

Mas isso não quer dizer que o que restou após a queda do muro de Berlin seja bom ou suficiente. Aliás, bem pelo contrário.

Você estar inserido em um contexto não lhe obriga a, necessariamente, concordar com ele. Vivemos em um mundo capitalista, em uma sociedade de consumo, da valorização do “eu” em detrimento do “nós”. Mas sou terminantemente contra o pensamento de que “o mundo é assim, temos que nos adaptar”. Isso faria de nós um rebanho de bois sem consciência crítica. Eu tenho minhas aspirações financeiras, mas não estou disposto a pagar qualquer preço por isso. Minha felicidade está antes de tudo no que sou, e não no que possuo. Vez por outra tenho vários ímpetos consumistas, mas jamais pagarei R$ 400,00 por um tênis só pelo status social que ele proporciona ou por que uma bem treinada equipe de marketing fez as pessoas acreditarem que ele é muito mais confortável que outro.

Creio que nenhuma pessoa em sã consciência e minimamente preparada seja, em tese, contrário à livre iniciativa. Mas se a ambição humana é uma condição normal nossa, se o homem é cada vez mais individualista, se o homem cada vez mais é o lobo do homem, é preciso que a sociedade formal, na figura dos seus administradores e governantes, crie algum mecanismo que impeça que essa natural vocação dos homens pela desigualdade maximize as diferenças sociais tão gritantes entre as diversas camadas sociais. Diferenças essas que são responsáveis por grande parte das mazelas que vivemos hoje em dia.

Isso pode ser mal compreendido pelas pessoas, principalmente por aquelas que não corroboram do mesmo pensamento e, por serem justamente contrárias a isso, criam estereótipos e pensamentos maniqueístas a respeito do assunto. Porém mais do que certo e errado nessa discussão, há claramente uma visão do mundo que defendemos, como comentei no início. E, no mundo que eu defendo, o “eu” e o “nós” tem de, necessariamente, caminhar juntos.

E você, que visão de mundo defende?

18 de setembro de 2009

Estatísticas atualizadas

Desde fevereiro até a presente data este blog ultrapassou a marca de 3800 visitas, motivo pelo qual agradeço publicamente todos os leitores, assíduos ou não, dele.

Atualizando os dados do google analytics, nos últimos 30 dias esse blog teve:

- 159 visitantes diferentes que realizaram 355 acessos ao site;
- 515 pageviews nesse período;
- Principais países de origem das visitas: Brasil (309), Estados Unidos (20) e Portugal (16)
- Textos melhor pontuados no ranking de acessos: Saudade não dói e A vida com trilha sonora

15 de setembro de 2009

Falando de Deus e religião - parte 2

Finalizando minha reflexão iniciada no post anterior, baseado em tudo que leio, penso e reflito a respeito do assunto.

Uma vez, participando de um fórum de discussão na internet sobre religiosidade, alguém questionou qual o principal empecilho para que todas as religiões dialogassem sobre aspectos comuns. Eu respondi que era por causa da natureza diferenciada dos preceitos básicos da maioria delas. Cristãos, judeus, espiritualistas, muçulmanos, hindus, adeptos do candomblé possuem maneiras de entender o sobrenatural que são incompatíveis filosoficamente. O que não significa que não possam conviver educadamente.


Todavia, no caso do cristianismo, em particular, me frustra ver o atual panorama de combatividade entre algumas denominações religiosas.

Sou um grande defensor do ecumenismo entre as diferentes religiões cristãs, até por acreditar que religiões são divisões humanas. Isso porque o ensinamento de Jesus Cristo, sendo vivido em sua plenitude conceitual, é (ou deveria ser) o MESMO para todos os cristãos. Hoje ainda vejo o quanto estamos afastados (cristãos) por essa briga entre evangélicos tradicionais, reformados ou pentecostais, católicos romanos ou ortodoxos, mórmons. Se Deus ama a toda a humanidade, justos e injustos, pecadores e fiéis, ele é de um amor tão grande que não permite essa diferenciação entre o certo e o errado tão facilmente "identificável" pelas “religiões” humanas.

Assim, temos de um lado uma Igreja católica outorgando para si a condição de única representante legítima de Jesus na Terra para impedir o crescimento dos evangélicos. De outro lado, temos os evangélicos (principalmente os pentecostais e neo-pentecostais) justificando que somente eles vivenciam uma fé legitimamente baseada nos ensinamentos da Bíblia e dos primeiros cristãos, razão pela qual as pessoas devem se "converter" se quiserem alcançar a salvação. Perceberam como essas coisas tem muito mais a ver com os homens do que com Deus? A mensagem de Jesus, de guardarmos a fé em Deus, amarmos o próximo e fazermos o bem, não é compatível com nenhum desses dois conceitos apregoados de lado a lado.

Deus não manda as pessoas para o “inferno” por elas não seguirem as tradições católicas ou por elas não viverem segundo as interpretações evangélicas da bíblia.

Deus não é uma “ser” que fica em algum lugar punindo alguns e presenteando outros, ao seu bel prazer. Deus é um conceito maior, ou mesmo uma “entidade”, através do qual os homens procuram explicar uma força superior a nossa compreensão, que nos fez o que somos, e não outra coisa. Que nos mantém aqui, e não em outro lugar. Que faz com que, no meio de tantas e tantas filosofias, armadilhas morais ou tentações, queiramos algo que seja sublime, e não frugal. Algo inexplicavelmente fora da nossa compreensão que nos conforta mesmo no mais angustiante dos momentos. Que nos salva quando queremos nos perder, que nos guia mesmo sem entendermos como e por quê. Que nos faz entender que o homem depende do homem, e que “amar ao próximo como a ti mesmo, e a Deus sobre todas as coisas”, nada mais é do que exercitar aquilo que chamamos de AMOR, no seu sentido mais amplo e irrestrito, ligado àquilo que o ser humano denominou como FÉ. O modo que você exercita esse conceito, ou seja, a denominação religiosa que você segue, tem importância muito mais para você, no seu dia-a-dia, do que para Deus.

8 de setembro de 2009

Falando de Deus e religião - parte I


Se você faz parte daqueles que pensam que religião é um assunto muito controverso para ser discutido, ou se sente contrariado quando determinados dogmas de fé são questionados, não siga adiante com essa leitura. Esse texto tem a pretensão de ser um ensaio sobre muitas das coisas que eu penso a respeito do tema, a partir da minha experiência como cristão, cientista e ávido leitor de trabalhos e textos sobre teologia, hermenêutica bíblica, filosofia e filosofia da ciência.

Primeiramente, para quem não sabe sou um cristão formado na Igreja Católica. O que não significa que concorde com todos os dogmas do catolicismo. Também já tive oportunidade de ler ou ter contato com cultos evangélicos, principalmente batistas, luteranos, e alguns neo-pentecostais. O que não significa, também, que concorde com todas as interpretações evangélicas sobre fé. Já li sobre espiritismo, mas sou fortemente contrário à abordagem científica objetiva (?) proposta por eles para explicar fenômenos sobrenaturais subjetivos. Já li sobre criacionismo e sobre evolucionismo, e ainda mais, até sobre evolucionismo criacionista. Trabalho com pesquisa científica e aplicada. Sobre ciência, aliás, sou um pesquisador que não vê problemas nessa dualidade fé X ciência.

Uma das coisas que mais concordo quando vejo pregações é a máxima de que devemos procurar “menos religião, e mais Deus”. Concordo plenamente, ainda que a maior parte dos cristãos utilize isso de forma sofística para fazer crer que eles não têm preocupações com a religião em si, quando têm, e muito. Independente disso, é uma das frases que deveriam estar na mente de todo cristão. O que os homens definem como preceitos, dogmas, regras de conduta, balizadas ou não por interpretações (suficientes ou insuficientes) dos textos bíblicos, são resultados de uma hermenêutica particular de um grupo definido de pessoas e/ou teólogos. São padrões que determinados grupos assumem como condição verdadeira para viver segundo o que acham mais conveniente teologicamente, mas não têm, necessariamente, similaridade com o que seja, de fato, a vontade de Deus. Qual o homem que detém o conhecimento inequívoco do que seja a vontade de Deus? Se você o conhece, me apresente. A vontade de Deus é a meu ver, é bem mais simples do que a maioria dos homens pode supor. Mas não está claramente expressa em lugar algum, pelo menos de forma irrefutável.

Karl Popper faz uma afirmação mais voltada para a filosofia da ciência, mas que se presta aqui nesta discussão. Popper argumentou que uma teoria será sempre conjectural e provisória. Em outras palavras, sempre podemos provar a partir de dados ou experiências que é uma teoria falsa, mas nunca afirmar categoricamente o que é uma verdade irrefutável.

No que uma beata católica, um pastor metodista ou um fiel pentecostal pode me corrigir, com idêntica fala: “Seu erro é não perceber que só há uma única forma de servir a Jesus Cristo”. No que eu responderia, desculpem-me, mas vocês estão sendo usados para balizar conceitos que servem não às pretensões de Deus, mas às dos homens.

Rubem Alves, escritor de formação presbiteriana, fala algo do qual concordo integralmente: “Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós”. Aliás, os textos mais inteligentes sobre teologia que pude ler ultimamente em geral são de presbiterianos ou de pessoas que tiveram, em algum momento, formação presbiteriana. Mas também não significa que concordo com os preceitos dessa denominação.

Brian McLaren, um controverso pastor americano, vai mais além: "As nossas interpretações revelam menos acerca de Deus ou da Bíblia do que sobre nós mesmos. Elas mostram o que queremos defender, o que nós queremos atacar, o que queremos ignorar, o que não estamos dispostos a questionar ..."

Eu continuo vivenciando minha fé, principalmente - mas não somente - freqüentando a igreja católica por ver, nas pessoas que a freqüentam conscientemente, e em muitos dos bons pregadores que existem nela, que ali é expresso com maior entendimento o maior legado deixado por Jesus Cristo: a vivência do amor em Deus. Mas isso não me deixa míope para as coisas erradas nos dogmas que nela existem, tampouco me faz ignorar o que há de bom na hermenêutica bíblica de outras denominações.

"Eu acredito que as pessoas não são salvas por uma verdade objetiva, mas por Jesus. A sua fé não está em seus conhecimentos, mas em Deus." - Brian McLaren, novamente. Ou seja, se você leu toda a bíblia isso não faz de você necessariamente mais preparado para entender a “vontade de Deus”. Até porque a realidade mostra que muita gente que sabe a bíblia de cor não sabe interpretá-la de fato. Independente de credos.

27 de agosto de 2009

Decisões


A vida é recheada de decisões que temos que tomar ao longo desse nosso percurso tortuoso por esta Terra cheia de possibilidades. Aceitar ou não um novo emprego, continuar ou terminar um relacionamento, fazer um cruzeiro ou investir nosso dinheiro, férias na praia ou no campo, carreira ou família, dormir um pouco mais ou chegar na hora certa da reunião. Às vezes temos mais opções, mas na maioria das vezes é preto ou branco, certo ou errado, paz ou guerra. E as conseqüências, independente das escolhas, podem ser agradáveis ou frustrantes. A vida não é prodigiosa em tarefas fáceis, muito pelo contrário. Nessas horas lembro da época que li Sartre no colégio, e do que ele falava quanto a sermos livres e responsáveis pelas nossas decisões. Estamos condenados a ser livres. Não há fuga para a nossa responsabilidade em decidir. Será? A insegurança geralmente é a pior das conselheiras. Nos acovarda, nos diminui, nos faz precipitar ou adiar as decisões. E talvez por isso nos faz tomar as decisões com medo do que vem pela frente. Ou adiar atitudes que temos que ter. Sartre dizia também que muitas vezes queremos que outros decidam por nós, quando a decisão, no final das contas, sempre é nossa.

E é verdade. Geralmente sabemos o que queremos, ou o que devemos fazer. No fundo, no fundo, não importa o que os outros digam, a gente já tem a ideia cristalizada na mente, e fica apenas a espera da aprovação dos outros ou, covardemente, que alguém nos “guie” no caminho de uma decisão que não nos cause arrependimento. Mas o maior arrependimento, no final das contas, sempre acaba sendo perceber que não fizemos o que sabíamos que devíamos fazer.

Como já escrevi em outro texto deste blog (clique aqui para lê-lo), "nossos medos nos fazem pessoas que não somos. Confie em você, e o tempo faz o resto."

17 de agosto de 2009

Entardecer (de mais uma primavera)


Comemorar aniversário geralmente tem um significado diferente para cada pessoa. Alguns ficam desanimados com a maturidade inevitável, outros colocam a data como a mais especial da agenda no ano. Alheio a qualquer das alternativas, sempre vi meu aniversário como uma oportunidade de juntar a família e os amigos ao meu lado, para simplesmente celebrar o fato de ter uma vida muito feliz. E o saldo tem sido imensamente positivo, acreditem.

É engraçado que quando ultrapassamos a barreira dos 30, as pessoas têm aquela ideia que a “juventude” se foi de vez, que a vida de responsabilidades chatas e enfadonhas está de vez maculando parte da nossa alma. Perguntam como é a sensação, o que penso a respeito, etc, etc. Sinceramente, esses últimos 12, 18 meses têm sido fantásticos. Ainda guardo na memória a época do meu mestrado, dos amigos e de tudo que vivi entre meus 23 e 25 anos, talvez os melhores anos da minha vida. O que veio depois dos 26 foi bom, me trouxe felicidade, amadurecimento. Mas agora, passado os 30, a vida tem aberto tantas perspectivas, tantas coisas boas que é impossível não pensar que está cada vez melhor vivê-la!!

“A vida é maravilhosa para quem não tem medo de vivê-la”, falou o genial Charles Chaplin, e eu concordo plenamente. Você faz a sua vida mais ou menos intensa, séria ou despretensiosa, alegre ou cheia de neuras, exitosa ou indecisa. Eu optei por ver a felicidade como um meio, e não um fim. E hoje, após as comemorações do meu aniversário, agradeço a Deus por tudo de bom e de ruim que me aconteceu, e tudo de bom e ruim que ainda virá, e que me tornará o que sou. Feliz não por querer o que é materializável, mas por desejar o indefinível. Não por ter, mas por ser. Não por ser amado, mas por amar intensamente. Sempre.

12 de agosto de 2009

Entre Will Smith e John Galt


Estou de volta à ativa. Depois de um breve descanso que de descanso não teve nada, mas tudo bem... hehe

Já faz algumas semanas que queria escrever este texto. Em um espaço de poucos dias assisti dois vídeos totalmente distintos quanto às mensagens que tentavam passar. “Sete vidas”, filme com Will Smith, e “Quem é John Galt”, uma montagem feita no youtube pelo Instituto John Galt a partir do trecho do livro de mesmo nome, de Ayn Rand. Comecemos por este último.

“John Galt” é um personagem de um livro que procura divulgar idéias do chamado objetivismo, filosofia proposta pela autora Ayn Raind. Resumidamente, as principais ideias que entendo serem as bases do que a autora sugere são:

- Cada homem é um fim em si mesmo e não um meio para o fim de outros homens. Deve existir em função de seus próprios propósitos, não se sacrificando por outros nem sacrificando outros por ele;
- Religião e ideias coletivistas são as verdadeiras causas da desgraça moral da Humanidade, e não a suposta ganância ou o individualismo contemporâneo.
- Não há mal nenhum em viver em busca somente da própria felicidade e sem se importar com os outros, desde que você teoricamente não cause mal a ninguém.
- Dinheiro e lucro não são um mal, e quem os possui, não importa em que escala, fez por merecê-lo (desde que honestamente), independente dos outros.

Acho que quem me conhece minimamente sabe que discordo veementemente da quase totalidade desses argumentos. Além de conter algumas inconsistências conceituais, o objetivismo de Ayn Raind ignora que não vivemos em uma sociedade justa e em igualdade de oportunidades. Mas para mim o pior dessa proposta é achar que o homem deve viver egoistamente para a própria felicidade. Muito diferente da mensagem do filme que assisti, e que cito a seguir.

Em “Sete Vidas”, Will Smith é um homem amargurado por ter matado, ainda que acidentalmente, sete pessoas em um desastre de carro, entre elas sua esposa. A partir daí, decide lançar-se em uma jornada de solidariedade para sete pessoas que demonstrassem merecer sua ajuda de forma incomum, o que culmina com um fim nem tão surpreendente, mas muito emocionante, onde Will Smith abre mão da própria vida (Como? Vejam o filme!) em função daqueles que deseja ajudar.

Boas reflexões. Devemos fazer o que é bom, o que é certo ou o que é justo? O que é certo nem sempre é bom? O que é bom, nem sempre é justo? O que é justo, nem sempre é certo? Egoísmo é uma questão de perspectiva? De quem?

Eu sempre achei, por formação e por convicção, que a igualdade entre os homens é ilusória, mas que a solidariedade, no sentido de entender a felicidade não como algo estritamente dependente da nossa individualidade, mas também das pessoas que nos rodeiam, tem que ser um objetivo a ser sonhado.

Meu pai tem uma frase: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. Já vi essa frase ser muito mal compreendida e até criticada como “pequenez de espírito”. Quem tem um pouco de discernimento para ver que tal frase não é um incentivo ao “sacrifício pessoal” ou ao “coitadismo”, verá claramente que, na verdade, a “pequenez de espírito” está justamente em pensar ao contrário, em querer uma vidinha egoistamente feliz quando fechada na própria individualidade.

5 de agosto de 2009

Férias?

Quem disse que férias são somente para descansar?

Nas últimas semanas estive um pouco ausente, colocando os projetos atrasados em dia, revisando aulas para o próximo semestre, retomando a pesquisa da minha tese.

Agora espero poder voltar a escrever com a frequência que gosto por aqui.

Abraços!!!

21 de julho de 2009

A loira e o copo plástico


Conforme prometido quando escrevi o post do dia mundial do rock, vou reservar um espaço para contar algumas histórias de shows que assisti. Aqui a primeira.

Às vezes lembramos mais de um espetáculo pelas histórias que o envolvem do que propriamente pelo artista em si. Foi assim em 2005. Fui ao show do Lenny Kravitz. Muito bom. Não o melhor que assisti, mas certamente o que me traz mais lembranças engraçadas.

Estádio Olímpico com 25 mil pessoas, entre elas eu e meu amigos Cristóvão, Gugão e Edna. Como moro perto, fiquei esperando eles chegarem. Combinamos 20 hrs. Eram 21 hrs e nada...eu irritado com a demora e quando eles chegam me dizem que tinham decidido vir a pé ao invés de táxi. No caminho, foram parando em vários bares e, em um deles, Cristóvão diz que encontrou o banheiro mais surreal que já viu. Um cubículo tão pequeno que a pia ficava logo acima do mictório. Um dia ainda encontro esse bar e tiro uma foto. Ingresso na mão, entramos no estádio. Tentamos chegar o mais perto possível do palco, mas havia um tal de espaço VIP com cadeiras em frente. Absurdo. Colocar camarote bem ali, onde é o espaço do público pular, vibrar, dar o tom da energia do show...mas, enfim...

Público chegando, chegando, e nessas horas a gente vê como é bom ter mais de 1,80m. Ainda que a visão não fosse lá das melhores, conseguia ver bem o palco. Luzes piscando, som aumentando, bem como a ansiedade e o frenesi. Então olho em volta e vejo uma mulher ao nosso lado. Nossa. 1,75m, longos cabelos loiros cacheados, bronzeada de Sol... Calça jeans apertada, top branco com um generoso decote. “Ahh, Porto Alegre...” foi o que comentou Gugão, que é pernambucano. Nessa altura Edna já havia conseguido um espaço mais à frente do palco e ficamos ali, Cristóvão, Gugão e eu, maravilhados. Foi então que ela, em um movimento, coloca o braço para cima para soltar um gritinho típico de “uh-huuu” (imagine a cena em câmera lenta, os três patetas de olhos arregalados ao lado e aquele lindo braço bronzeado e torneado elevando-se), eis que ela deixa à mostra... o...o... Sovaco MUITO cabeludo!!!!

Decepção total. Era melhor voltar ao show, que estava começando.

Fly Away, Can’t Get You Off My Mind, It Ain’t Over ‘Til It’s Over… e o público cantando. Músicos bons, destaque para a baterista (sim A baterista) Cindy Blackman, que consegue trazer as influências da sua formação em jazz para o palco, mesmo em um show de rock. Segue o show. American Woman, Again (minha preferida), Are you go my way. Eis que inicia um tumulto na área VIP, e Lenny para o show. “Viemos aqui celebrar o amor, não a violência, cara”, diz ao brigão. Rock and Roll is Dead, Dig in... e a noite seguiu, em quase duas horas de show.

Fim. Público satisfeito, nós também.

- Tenho que ir ao banheiro - comento.
- Eu já fui.
- Como assim, Gugão? Tu não saíste do nosso lado o show inteiro!
- Tinha muito tumulto para sair daqui, fiz no copo plástico da cerveja mesmo.
- Putz, no meio do público??? Como você conseguiu isso?
- Abri o zíper e fiz no copo, meio escondido...pior q o copo foi enchendo, enchendo... cara, tive q interromper no meio porque ia transbordar!!
- Sorte que a loira do sovaco cabeludo não viu isso, hein? Vai que ela se apaixonasse...

16 de julho de 2009

Homo homini, lupus est


Você já parou para pensar quanto do nosso discurso é teoria e quanto do nosso discurso é prática? Quais são os valores que achamos certos e quais valores conseguimos efetivamente colocar em prática no nosso dia a dia? Antes de você, após ler isso, iniciar um processo de auto-flagelação ou de condenação alheia, uma importante ressalva: essas reflexões não têm objetivo de condenar nossos comportamentos. São apenas uma forma de explicitar nossa condição humana em palavras. Vivemos um eterno conflito interior entre o que achamos que são atitudes que devemos ter e esperar das outras pessoas, e as que acabamos realizando ou aceitando, convenientemente, por diferentes razões. Por vergonha de uma reação questionadora, por amizade, por medo de reprovação ou da solidão, fazemos vista grossa, relativizamos cláusulas éticas antes pétreas nas nossas vidas. Buscar a felicidade é uma condição instintiva do ser humano, mas os percalços que insistem em atravessar a nossa frente e nos porem à prova por vezes são cruéis. Exigem tomadas de posição que nem sempre podemos ter. E nos forçam a, muitas vezes, dissimular. Até que ponto isso é aceitável? Aliás, isso é aceitável? Será que o politicamente correto às vezes não invade excessivamente nossa vida? Ou será o contrário, deixamos o correto de lado para nos favorecer quando necessário? Será que é errado querer que as pessoas tomem posição ou partido das coisas nas suas vidas, mesmo quando os momentos não são tão favoráveis? Ou será que a vida em sociedade seria um inferno se cada um não abstraísse um pouco certas coisas às vezes? Sim, hoje estou filosófico demais, nem sei se eu me entendo aqui...

Afinal, não é o mesmo cidadão que omite dados no imposto de renda (“afinal, todo mundo faz isso, por que eu vou ser o único bobo a não fazer?”) que depois reclama da esperteza dos políticos que desviam dinheiro público? Não é apenas uma diferença de escala entre um e outro? E quando você critica a violência e a impunidade, agiria igual se fosse seu filho que estivesse dirigindo bêbado e fosse acusado de causar um acidente? (“Ele é um menino bom, estudioso, de família... não pode ter a vida estragada só porque cometeu um deslize momentâneo”). Essa relativização ao mesmo tempo em que nos salva, nos condena. Será que em cada momento que fraquejamos, em que temos medo do desconhecido, não matamos um pouquinho de nós mesmos dentro da gente? Se, ao contrário, mantemos nossas convicções inabaláveis, não serão elas que talvez (justamente) nos alavanquem no caminho da felicidade? Ou será que realmente existe a questão da escala?

Juro para vocês que não tenho a mínima idéia do que quis escrevendo isso, mas veio a minha mente essa história, e achei interessante publicar.

O homem é lobo do homem. Pior que isso, às vezes nós somos lobos de nós mesmos.